PAZ NA TERRA ENTRE OS MONSTROS é um livro composto por oito contos e uma novela. Será lançado pela editora Record em 2008. Abaixo, trecho do conto Acho que agora não falta ninguém.
......................... O inferno chegou tarde. Eu já
estava suficientemente mal pra me comover com o FIM. Eu me lembrava das coisas
com a exatidão de um louco. Dava unidade a uma série infindável de icebergs
isolados, cada qual numa ponta do mundo afundando um navio maior que o outro,
maior que o próprio mundo. Eu era o gelo que os unia, resumia, definia. Eu
definhava ante a promessa de "fazer sentido". Sabia que, ao
"fazer sentido", seria engolido por um buraco negro com o tamanho da
minha cara e o tamanho da minha fome.
Hoje faz
três dias que eu e Talita terminamos.
Meses
que papai morreu.
Por que
chamá-lo, justo agora, de "papai"? É esta a minha ironia sem igual,
dando aos mortos nomezinhos impensáveis e aos vivos significâncias esdrúxulas.
Ironia sem valor em si, mas valorosa para si. Eu me percebo agora, sim, mas,
ainda que me percebesse há anos, isso de nada adiantaria. Poderia perguntar ao
meu primo se poderia sê-lo, agora que meu pai já não é. Talvez tivesse valor
encarnar alguém que traz em si uma dor sincera não por alguém, mas pela morte
de alguém. Porque meu primo não sente por meu pai, sente pela morte do meu pai.
Sente não pela coisa, mas pelo acontecimento com a coisa. Para ele, a coisa
sozinha não é nada, bem como não é nada o acontecimento isolado. Importam, sim,
indissociáveis, coisa e acontecimento: o pai morto, o pai e sua morte, o pai em
sua cova, o pai e o adeus, o pai enterrado, o pai que já era, o pai e seu
órfão, o pai e sua viúva, o pai e seu inferno, e é onde chegamos.
Onde?,
não sei se ao pai ou se ao inferno.
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